Carta do Gestor/Informativo Mensal de Julho de 2025
- Carta do gestor
- 8 de agosto de 2025
O mês de julho foi marcado por medidas agressivas do presidente Donald Trump, que enviou cartas impondo aumento de tarifas a diversos países. O objetivo era pressioná-los a firmar acordos comerciais com os Estados Unidos até 01/08, sob ameaça de tarifas ainda mais severas. A estratégia surtiu efeito: os principais parceiros comerciais aceitaram negociar. As tarifas, que o mercado esperava em 10%, foram elevadas para 15%, o que foi considerado uma vitória para o governo americano.
O Japão foi o primeiro a firmar acordo com tarifa de 15%. Em 2024, o país registrou um superávit comercial de US$ 70 bilhões com os EUA, sendo o quinto maior parceiro em bens. Empresas japonesas e americanas vão criar cadeias de suprimento para os setores farmacêutico e de semicondutores. O Japão também aumentará a compra de produtos agrícolas, especialmente arroz. As tarifas sobre o setor automobilístico, que representa ¼ das exportações americanas, foram reduzidas de 27,5% para 15%. Com o anúncio, a bolsa japonesa atingiu a máxima de 1 ano.
A União Europeia foi o segundo grande acordo firmado, também com tarifa de 15%. Considerado o maior acordo comercial já realizado, ele visa reequilibrar a relação que até então era favorável aos europeus. A UE se comprometeu a comprar US$ 750 bilhões em produtos energéticos dos EUA e a investir mais US$ 600 bilhões na economia americana. A tarifa de 15% se aplica a automóveis, semicondutores e fármacos, enquanto setores estratégicos como aeronaves, alguns químicos e matérias-primas críticas terão tarifa zero. Para aço e alumínio, foi estabelecido um sistema de cotas, diante do excesso de capacidade global. Juntos, EUA e UE representam 44% do PIB global. Pela primeira vez, os europeus aceitaram integralmente os padrões automotivos e industriais dos EUA, o que permitirá maior acesso americano ao mercado europeu de veículos, estimado em US$ 20 trilhões.
Com a China, embora as negociações tenham avançado e as tensões diminuído, o prazo foi estendido por mais 90 dias. O Brasil, mesmo sem déficit comercial com os EUA, recebeu uma carta com aumento de tarifas para 50%, sob justificativa política envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Apesar da pressão política de Trump sobre o Federal Reserve para cortar os juros, o comitê manteve a taxa, embora com dois votos favoráveis à redução. Isso expôs divergências internas quanto aos efeitos das políticas de Trump sobre inflação e mercado de trabalho. O Fed apontou incerteza elevada e sinais de moderação na atividade econômica, indicando que poderá reavaliar os dados até a reunião de setembro.
Na coletiva, o presidente Jerome Powell afirmou que a política monetária deve permanecer ligeiramente restritiva, dado o mercado de trabalho sólido e a inflação ainda acima da meta. Segundo ele, há dois meses de dados pela frente até a próxima reunião, o que dá tempo para avaliar os reais efeitos das tarifas sobre a atividade econômica e a inflação.
O Banco Central Europeu (BCE) também manteve sua taxa de juros inalterada em 2%, conforme esperado. O BCE citou as tarifas como risco potencial, pois uma queda na demanda por exportações pode levar à redução da inflação na zona do euro. A decisão foi tomada antes do anúncio do acordo comercial, mas mesmo com o acordo, a postura provavelmente seria a mesma. O BCE continua em modo de “esperar e observar”, e o mercado ainda precifica ao menos um corte de juros até o fim do ano.
No Reino Unido, a inflação subiu inesperadamente para 3,6% em junho, maior nível desde janeiro, impulsionada pelo aumento dos preços dos alimentos. O repasse de custos ao consumidor reflete a elevação de impostos trabalhistas e do salário mínimo promovidas pelo governo trabalhista. Apesar disso, o Banco da Inglaterra deve cortar os juros em agosto, diante da desaceleração da atividade econômica, deixando a decisão futura dependente dos próximos dados.
O Banco do Japão manteve sua taxa em 0,50% e revisou para cima sua projeção de inflação para o ano fiscal, de 2,2% para 2,7%, principalmente devido à alta nos preços dos alimentos. Mesmo assim, o presidente Kazuo Ueda descartou uma alta de juros imediata, citando incertezas quanto aos impactos das tarifas americanas sobre o comércio e a economia japonesa. O primeiro-ministro do Japão, Shigeru Ishiba, viu sua aprovação cair para 29%, enfrentando pressões internas por sua renúncia. Apesar do acordo favorável com os EUA, isso não foi suficiente para recuperar sua popularidade. Ishiba alegou que a responsabilidade pela derrota política é coletiva.
A China apresentou dados mais fracos em julho, tanto na indústria quanto nos serviços. Houve desaceleração nas exportações e queda nos pedidos, impactando a produção industrial. Enquanto os preços recebidos caíram, os preços dos insumos atingiram o maior nível desde outubro de 2024, pressionando as margens. O setor de serviços também sofreu, especialmente na construção civil. A fraqueza reflete a incerteza sobre a manutenção das tarifas de 30% até 12 de agosto, com possível extensão por mais 90 dias. A China busca diversificar mercados e adotar estímulos para reaquecer o consumo interno. A queda na atividade levou ao corte de vagas em julho.
No Brasil, o Copom manteve a taxa Selic em 15%, como já era amplamente esperado. O comunicado foi mais duro, indicando que os juros devem permanecer nesse patamar até o final do ano. O Banco Central apontou expectativas de inflação desancoradas, atividade econômica resiliente e um mercado de trabalho robusto, um conjunto que exige política monetária restritiva por período prolongado. O Copom também mencionou as tarifas impostas pelos EUA, afirmando que acompanha com atenção seus possíveis efeitos. O cenário externo é visto como mais adverso, e os riscos inflacionários, tanto para alta quanto para baixa, seguem acima do usual.
Em julho, obtivemos resultados positivos na bolsa americana e em posições compradas em dólar, mas sofremos perdas na bolsa brasileira após o anúncio das tarifas adicionais pelos EUA. O mercado local tornou-se mais volátil, o que nos levou a comprar uma opção de dólar para agosto como forma de seguro. Caso as tarifas permaneçam em 50%, parte do fluxo exportador pode ter sido antecipado para julho, tornando agosto um mês mais fraco. Além disso, há o risco de novas sanções ao Brasil por conta da compra de óleo diesel da Rússia. Neste cenário em que a política se sobrepõe aos fundamentos econômicos, optamos por reduzir a exposição e adotar uma postura mais tática, aproveitando a volatilidade diária até que o cenário se torne mais claro.
Acreditamos que o câmbio possa se desvalorizar até o final do ano, em razão de um fluxo negativo e do agravamento da conta corrente. Ainda não é possível estimar o impacto das tarifas sobre o investimento direto estrangeiro no Brasil. No entanto, o cenário global aponta para um dólar fraco, e o diferencial de juros continua atraente. Isso tem sustentado o interesse estrangeiro no real. Por esse motivo, adotamos uma trava de alta em dólar, com perda limitada, e seguimos na nossa jornada em busca do topo da montanha.