Carta do Gestor/Informativo Mensal de Janeiro de 2026
- Carta do gestor
- 10 de fevereiro de 2026
O ano de 2026 começou com o presidente americano Donald Trump “on fire”, agindo
conforme vinha sinalizando. Para muitos que não o levavam a sério, ele demonstrou
que não estava brincando. O primeiro grande movimento foi a captura e prisão do
presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, em uma ação digna de filme: agentes
americanos teriam invadido o palácio onde Maduro se encontrava e o levado preso
para Nova York, para responder como responsável por um cartel de drogas.
Para justificar a invasão, Trump usou uma versão moderna da Doutrina Monroe (criada
em 1823 como forma de os EUA afirmarem sua influência na região; ao longo do
tempo, foi reinterpretada e usada para justificar intervenções). Na sequência, Delcy
Rodríguez assumiu como presidenta interina da Venezuela e adotado um tom
conciliador após ameaças de Trump: caso não houvesse colaboração, o desfecho
seria “pior que o de Maduro”. Com isso, Trump passou a influenciar a venda de
petróleo, proibindo a venda para Cuba e indicando que o próximo regime a cair seria o
cubano.
Trump voltou a afirmar que a Groenlândia é essencial para a segurança americana e
que não mudará de ideia e que, se necessário, usaria até a força militar. Também
ameaçou impor tarifas a países europeus que não concordem com a anexação.
Outro alvo de Trump é o Irã, que estaria pressionado por protestos populares contra o
regime e teria um apoiador incomum: o próprio Trump, incentivando as pessoas a irem
às ruas. O regime iraniano, por sua vez, reprime, prende e executa manifestantes. Após
isso, os EUA enviaram o porta-aviões USS Abraham Lincoln ao Mar Arábico e avisado
que, caso ocorresse uma nova execução, atacariam o país. Devido à forte repressão,
os protestos cessaram, mas Trump parece determinado a avançar ainda que
“costurando” algum acordo com atores regionais, que se opõem por receio de
desestabilização. Diante desse risco, o petróleo subiu 14% em janeiro.
Nos EUA, Donald Trump continuou seus ataques ao presidente do Fed, Jerome Powell,
incluindo intimação do Departamento de Justiça e ameaça de indiciamento criminal,
tentando influenciar a política monetária. Após essa tentativa, diversos líderes de
bancos centrais enviaram uma carta de apoio a Powell e à independência da
instituição. Em meio a esse cenário, os ativos globais reagiram: o dólar se enfraqueceu
e atingiu mínima de vários anos; as commodities (como ouro e prata) atingiram novas
máximas históricas em janeiro; e ocorreu uma realocação de carteiras globais, com
emergentes sendo beneficiados especialmente a América Latina. O Brasil recebeu
quase o mesmo volume de recursos em janeiro de 2026 que recebeu ao longo de 2025,
algo próximo de R$ 25 bilhões em um único mês, e o dólar fez mínima de R$ 5,18 no
spot.
No último dia de janeiro, houve um vai e vem nos mercados, com Trump nomeando
Kevin Warsh para ser o próximo presidente do banco central americano. O mercado
passou a especular que Warsh seria menos propenso a cortes de juros do que outros
candidatos. Ele já havia alertado que a inflação estava alta e que gostaria de ver
redução do balanço patrimonial. Com isso, os juros subiram, o dólar deu um “rebote”,
e o destaque foram as commodities: a prata chegou a cair 30% e o ouro chegou a cair
13%, movimento também associado ao aumento de margens para metais. Ainda
assim, o ouro fechou em US$ 4.895, com valorização de 13% em janeiro.
Na economia, o Fed manteve a taxa em 3,5%, com dois votos contrários à
manutenção, em linha com as expectativas. O comitê destacou que a política
monetária está bem posicionada, que o mercado de trabalho apresentou sinais de
estabilização (sugerindo menor urgência em novos cortes) e que a atividade
econômica cresce a um ritmo sólido, impulsionada pela valorização de ativos e por
estímulos fiscais anteriores. Ainda assim, o consumo permanece desigual entre faixas
de renda, o chamado formato “K”.
Na Europa, a inflação desacelerou para 2% em dezembro, alinhando-se à meta do
banco central e reforçando a posição do comitê de manter taxas estáveis. Os preços
subiram menos do que no mês anterior, e a inflação subjacente também recuou,
reforçando o entendimento de que a política monetária atual é adequada e não requer
mudanças.
O Parlamento Europeu congelou provisoriamente o acordo comercial com os Estados
Unidos, em resposta às ameaças de Trump de impor tarifas a países europeus que se
opõem às suas pretensões sobre a Groenlândia, evidenciando o desgaste entre
Washington e Bruxelas. Christine Lagarde afirmou que novas tarifas ameaçadas por
Trump teriam impacto marginal sobre a inflação na zona do euro, elevando a tarifa
média de 12% para 15%. O efeito inflacionário seria leve e pouco relevante para uma
inflação em torno de 1,9%. Ela alertou, porém, que grandes exportadores, como a
Alemanha, sofreriam mais, e que o principal risco é um choque de confiança diante da
imprevisibilidade da política comercial americana.
O Banco da Inglaterra alertou que juros mais baixos poderiam alimentar pressões
inflacionárias no Reino Unido, principalmente se a economia expandir mais rápido e
atrair fluxos de capitais que pressionem a libra e os preços domésticos. Isso reforça a
cautela do BoE em reduzir os juros rapidamente. A autoridade mostrou preocupação
com inflação e expectativas de preços, dizendo que, apesar da desaceleração recente,
os riscos ainda sugerem uma abordagem prudente. Megan também enfatizou a
importância de monitorar as expectativas de inflação de famílias e empresas antes de
ajustar a taxa.
A China apresentou PIB de 5% em 2025, dentro da meta. Mais uma vez, o crescimento
foi sustentado pelas exportações, com superávit recorde, estimulando a produção
industrial. Já o consumo doméstico, que começou o ano melhor devido ao programa
de troca, mostrou arrefecimento nos últimos meses, sugerindo demanda por
estímulos pontuais. O setor imobiliário começou bem com a redução de restrições à
compra de imóveis em grandes cidades, mas encerrou o ano em tom negativo, com
queda nas vendas no segundo semestre. O lucro das empresas chinesas registrou o
primeiro ganho anual desde 2021, tendo como motor o setor de bens de capital e
equipamentos. Ainda assim, o quadro segue heterogêneo, indicando que a retomada
permanece frágil.
A inflação da China acelerou para 0,8% em dezembro, impulsionada por alimentos e
consumo sazonal, mas o quadro subjacente segue desinflacionário/deflacionário: em
2025, o CPI médio foi zero, o menor desde 2009, refletindo fraqueza da demanda
interna, excesso de capacidade industrial e ajuste imobiliário. Economistas avaliam
que isso não impede afrouxamento monetário em 2026, embora o banco central
chinês mantenha postura cautelosa e tenha mantido taxas de referência.
O Banco do Japão manteve a taxa de juros em 0,75%, o nível mais alto em 30 anos,
enquanto monitora o impacto da alta de dezembro, e revisou para cima as projeções
de crescimento e inflação. Kazuo Ueda manteve tom equilibrado, destacando que o
BoJ continuará ajustando a política monetária conforme o panorama econômico.
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, dissolveu a Câmara Baixa e convocou
eleição antecipada para 08/02, o que aumentou a apreensão sobre promessas que
podem pressionar o fiscal. Com isso, o iene desvalorizou e chegou a 159 por dólar, e
os juros longos subiram. O governo japonês passou a fazer “intervenção verbal”,
dizendo que não toleraria movimentos especulativos e que, se necessário, interviria. O
mercado apenas desacelerou a desvalorização. O grande movimento ocorreu em
23/01, quando alguns dealers teriam recebido o Fed de Nova York pedindo cotação
para a moeda; com isso, o mercado desabou até 152, levantando dúvidas sobre ação
coordenada com o governo americano. A moeda se acomodou em torno de 152155,
com o dólar fraco globalmente e com endosso de Trump dizendo estar contente com o
valor do dólar. A estratégia parece ter sido ganhar tempo com atuações verbais e evitar
uma intervenção ao menos até o pleito de 08/02.
