Carta do Gestor/Informativo Mensal de Fevereiro de 2026
- Carta do gestor
- 6 de março de 2026
Um dos eventos mais marcantes do mês foi a decisão da Suprema Corte dos
Estados Unidos de barrar parte das tarifas amplas associadas à administração
Trump. A medida reacendeu imediatamente o debate sobre reembolsos
bilionários a empresas de bens de consumo e manufatura.
Ainda assim, o ambiente econômico global segue mais incerto. Pesam, de um
lado, as políticas tarifárias, especialmente dos EUA, e, de outro, as tensões
geopolíticas, com aumento do risco de escalada envolvendo EUA e Irã. Soma-se a isso o desafio persistente de equilibrar inflação e crescimento, além das
dúvidas sobre IA: se o retorno financeiro da infraestrutura justificará os gastos
massivos realizados.
Nesse contexto, o movimento global de realocação de ativos continuou firme
em fevereiro. Mercados emergentes receberam volume expressivo de capital,
apoiados por valuations mais atrativos após anos de dominância dos mercados
desenvolvidos, sobretudo em big techs. O dólar perdeu força e, em parte,
deixou de ocupar sozinho o papel de porto seguro; o ouro, por sua vez, se
consolidou como um ativo defensivo relevante para investidores.
Nos Estados Unidos, a economia continua resiliente, operando em um novo
normal de fragmentação comercial e rápida evolução tecnológica. Observa-se
crescimento leve a moderado, com estabilidade no mercado de trabalho. A
inflação, porém, segue acima da meta e relativamente persistente, pressionada
pelo aumento de custos de insumos.
Além disso, o consumo permanece desigual entre classes sociais, com gastos
mais impulsionados pela população de alta renda. Mesmo com esse cenário, o
mercado ainda precifica duas quedas de 0,25 p.p. ao longo de 2026, mais
concentradas no segundo semestre, quando o próximo presidente do FED,
Kevin Warsh assumir.
Na Europa, por sua vez, o banco central manteve a taxa inalterada, em linha
com o esperado, pela quinta reunião consecutiva. O comunicado destacou que
a inflação permanece próxima da meta de 2%, com riscos relativamente
balanceados entre pressões salariais e choques de oferta. A apreciação do
euro e a desaceleração dos preços de energia também contribuíram para esse
cenário.
Ao mesmo tempo, o crescimento segue resiliente, sustentado por um mercado
de trabalho robusto, consumo apoiado por renda real e poupança ainda
elevada, além de gastos públicos em infraestrutura e defesa. Diante disso, o
comitê reforçou uma abordagem dependente de dados, decidindo reunião a
reunião.
Já no Reino Unido, a autoridade monetária manteve a taxa de juros em 3,75%,
com placar apertado de 5 a 4, evidenciando a divisão do comitê. A avaliação
predominante é de que a inflação pode retornar a 2% a partir de abril, em parte
pela evolução dos preços de energia. As projeções indicam crescimento do PIB
de 0,9% em 2026 e 1,5% em 2027.
Nesse contexto, a inflação de janeiro recuou para 3,0%, reforçando a
expectativa de corte de juros em março. A queda foi puxada por combustíveis,
alimentos e passagens aéreas. Ainda assim, a inflação de serviços
permaneceu elevada, em 4,4%, indicando que a desinflação segue em curso,
porém com pressões remanescentes. Assim, o mercado continua projetando
duas quedas de 0,25 p.p. em 2026.
No Japão, a premiê Sanae Takaichi obteve uma vitória histórica nas eleições,
garantindo dois terços da Câmara Baixa, o maior resultado do pós-guerra. Com
isso, a bolsa japonesa atingiu novos recordes, impulsionada por seu plano de
crescimento e pela retomada do debate sobre mudanças constitucionais. A
moeda permanece pressionada, refletindo expectativas de uma política fiscal
mais expansionista e potenciais desafios para a condução da política
monetária pelo Banco do Japão.
Adicionalmente, a inflação de Tóquio desacelerou para 1,8% em fevereiro,
abaixo de 2% e no menor nível desde 2024, refletindo principalmente subsídios
governamentais para energia. Por outro lado, a inflação subjacente ficou em
2,5%, excluindo energia, mantendo o tema no radar. Dessa forma, o cenário
sugere cautela, com juros estáveis no curto prazo e maior dependência dos
próximos dados.
Na china, o banco central manteve as taxas de juros inalteradas, sinalizando
continuidade na condução da política monetária em um ambiente desafiador,
ao buscar equilibrar estímulos e estabilidade financeira. Durante o feriado do
Ano Novo Lunar, observou-se melhora no sentimento do consumidor, com
aumento de viagens, vendas no varejo e deslocamentos internacionais em
relação ao ano anterior.
Esse desempenho sugere que medidas de estímulo, como subsídios e
incentivos ao consumo, podem estar surtindo efeito. Ainda assim, permanece a
dúvida sobre o caráter sazonal do movimento ou se ele marca o início de uma
recuperação mais sustentada, o que determinará a necessidade de apoio
adicional adiante.
